25/04/2013

De azulejos, corpos e barroco

Uma das mais importantes artistas brasileiras atualmente, Adriana Varejão integra a mostra Trajetórias
O tesouro de um rei que algum dia caminhou sobre a terra. Parece título de obra de literatura fantástica ou até de filme. Mas é, na verdade, o nome de uma peça a óleo da artista plástica Adriana Varejão, que integra o núcleo contemporâneo da exposição Trajetórias - Arte brasileira na Coleção Fundação Edson Queiroz.

Obras da artista Adriana Varejão que integram a mostra "Trajetórias", no Espaço Cultural Unifor

Na mencionada imagem não há tesouro nem rei nem terra, pelo menos em representação figurativa. Mesmo assim, é impossível não parar e olhar por um bom tempo, seja pelas cores, as formas, as texturas ou, mais provável, tudo junto - como normalmente acontece nas produções contemporâneas.

Junto com "Sauna, ambiente" (que desconcerta pela simplicidade e simultânea riqueza do jogo de luz e sombra), a peça traz uma pequena amostra da produção da artista carioca, que em 25 anos de carreira firmou-se como uma das mais respeitadas não apenas no País, mas no circuito mundial. Seu currículo inclui mostras na Bienal de São Paulo e de Veneza, no Tate Modern (Londres), na Fundação Cartier (Paris), no Hara Museum (Tóquio) e no MoMa (Nova York).

Percurso

O Rio de Janeiro é sua cidade natal, onde mora e trabalha até hoje. Nascida em 1964, filha de uma nutricionista e um ex-piloto de caça da Aeronáutica, chegou a cursar engenharia na Pontifícia Universidade Católica do Rio.

Não demorou a perceber o equívoco da escolha e começou de novo, dessa vez no curso de Desenho Industrial - primeiro na mesma PUC, depois na Faculdade da Cidade. Entre as disciplinas oferecidas, gostava especialmente das aulas de história da arte.

Até então, o contato com o universo da produção artística estivera restrito às atividades do tempo de colégio e às leituras dos fascículos da coleção "Gênios da Pintura", à época comum em muitas famílias de classe média. O pulo do gato aconteceu em 1983, quando decidiu frequentar cursos livres na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, então veia pulsante da cena artística carioca e ponto seminal da chamada "Geração 80".

Não por acaso, chamava-se "Como Vai Você, Geração 80?" a exposição inaugurada em julho de 1984, que lançou nomes como Beatriz Milhazes, José Leonilson, Leda Catunda, Luiz Zerbini e Daniel Senise. Varejão não chegou a participar, mas o reconhecimento também não tardou. Em 1988, realiza sua primeira mostra individual, na Galeria Thomas Cohnna, no Rio. No ano seguinte, participa de uma coletiva no Stedelijk Museum, em Amsterdã.

Referências

De lá para cá, a artista acumulou uma lista considerável de prêmios e exposições, no Brasil e em outros países. A quantidade de imagens que saltam da tela em uma rápida pesquisa no Google com seu nome é apenas a primeira pista da relevância de seu trabalho, calcado em referências tão diversas quanto as artes do período colonial brasileiro, o estilo barroco, a arte sacra, a arquitetura de espaços como botequins cariocas e banheiros públicos europeus, a cartografia e a crueza e organicidade do próprio corpo humano.

Misturados, elementos desses universos são relidos e ganham novas significações em trabalhos com técnicas distintas. Destaques para suas peças de falsa-azulejaria, inspiradas inicialmente pelos azulejos portugueses coloniais, pintados à mão. Eventualmente, a peça também passou a remeter a ambientes como os de antigos botecos e açougues do Rio ou de saunas e piscinas.

Entre setembro e dezembro de 2012, Varejão teve sua obra exposta em retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com a exposição Histórias às Margens. A mostra reuniu trabalhos produzidos desde 1991. Ao todo, foram selecionadas 42 peças, boa parte inédita no Brasil, algumas oriundas de instituições prestigiadas como o museu britânico Tate Modern, o museu Guggenheim, de Nova York, e a Fundación La Caixa, na Espanha.

A artista chegou a criar uma obra especialmente para a exposição, um painel de 18 metros de extensão. Histórias às Margens também passou pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no início deste ano. Antes, em 2008, ganhou uma exposição permanente no Centro de Arte Contemporânea Inhotim, em Brumadinho (MG).

Reconhecimento

No final de 2011, Varejão foi destaque na mídia ao ter uma pintura arrematada por R$ 2,72 milhões em um leilão da famosa Christie´s de Londres. A obra, Parede com Incisões a la Fontana II (2001, da série Ruínas de Charque), não pertencia mais à carioca.

Foi a maior transação envolvendo um artista brasileiro e a segunda maior latino-americana - atrás apenas do colombiano Fernando Botero, que teve uma de suas peças vendida por R$ 3,38 milhões.

No Brasil, o recorde anterior era da também carioca Beatriz Milhazes, que em 2008 alcançou R$ 1,7 milhão pelo quadro O Mágico (2001), em leilão na casa Sotheby´s de Nova York.

Mais informações
Exposição Trajetórias - Arte brasileira na coleção Fundação Edson Queiroz, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). Aberta à visitação de 22 de março a 8 de dezembro, de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, sábados e domingos, das 10h às 18h. Contato: (85) 3477.3319.

ADRIANA MARTINSREPÓRTER 

Diário do Nordeste

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