A rivalidade entre os torcedores do Grêmio e do Internacional (estes chamados de colorados) é uma marca do Rio Grande do Sul. Mas os milhares de gaúchos que foram ganhar a vida com a agricultura no Paraguai deixaram as diferenças de lado. Todos são colorados. Antes que se imagine uma "traição" em massa dos gremistas, a torcida destes brasiguaios, como são conhecidos os brasileiros que cruzaram a fronteira para plantar soja, milho e trigo, é para o Partido Colorado. Por causa da bandeira vermelha, este é o nome popular da Associação Nacional Republicana, uma legenda conservadora que quase sempre ditou a política paraguaia desde a sua fundação, em 1887. Os colorados mandaram ininterruptamente no país de 1947 a 2008, incluindo nesse período 35 anos de ditadura do general Alfredo Stroessner. O predomínio foi quebrado pela surpreendente vitória do ex-bispo esquerdista Fernando Lugo, cujo governo comprou briga com os brasiguaios ao fazer pouco esforço para conter inúmeras invasões de grupos sem-terra. Agora, há um clima quase festivo entre os agricultores brasileiros para as eleições presidenciais deste domingo (21). O cenário mais provável é a volta ao poder dos colorados. O candidato do partido, o empresário e também dono de terras Horacio Cartes, é o favorito, beirando os 40% da preferência de votos. Não há segundo turno e basta a maioria simples dos votos. Se a vitória de Cartes for confirmada, o Paraguai voltará ao rumo da direita. A estada no hoje majoritário clube da esquerda sul-americana terá sido apenas um hiato na história paraguaia?
Ainda que Cartes não chegue à Presidência, a chance de um trunfo da esquerda é zero. O segundo colocado nas pesquisas é Efraín Alegre, do Partido Liberal Radical Autêntico. Alegre se diz um homem de "centro-esquerda", em resposta a um questionário de seis perguntas feito por ÉPOCA e enviado por email (leia a íntegra). Ele fez parte do governo de Fernando Lugo como ministro de Obras Públicas e Comunicações. Mas a aliança de 2008 entre o Partido Liberal e a Frente Guasú, a coalizão de grupos de esquerda encabeçada por Lugo, foi muito mais por oportunidade do que por convicção. Os liberais sempre foram adversários históricos do Partido Colorado, mas nunca tiveram uma plataforma propriamente de esquerda. Seu objetivo era apenas controlar as estruturas do Estado em poder do rival. Na eleição passada, os colorados se engalfinharam em brigas internas e não se uniram em torno de um nome. O desgaste já vinha de pleitos anteriores, com uma queda constante do número de votos para os candidatos do partido. Os liberais viram a chance de derrotar os colorados por meio de uma união com uma figura política ascendente, mas sem um ártido tradicional para lhe dar sustentação: Fernando Lugo. Sua vitória parecia o sinal de que o sopro esquerdista que já passara por todos os vizinhos (Brasil, Bolívia e Argentina) finalmente chegava ao Paraguai.
Lugo revelou-se, porém, capaz de desagradar tanto aos setores tradicionais da sociedade paraguaia como àqueles que depositavam nele a expectativa de um novo país. Aos cerca de 300 mil camponeses sem-terra, Lugo prometeu pressionar os latifundiários e acelerar a reforma agrária, num país onde 1% dos agricultores tem 77% da área produtiva. A primeira parte foi cumprida. A vida dos brasiguaios tornou-se uma tensão constante. Lugo incentivou o discurso de que eles exploravam as riquezas do país sem nenhuma contrapartida – a agricultura responde por um quarto do PIB e o Paraguai é o terceiro maior exportador de soja do mundo, com quase 70% de sua produção escoada para fora. Sua posição levou a uma radicalização dos "carperos", como são chamados os sem-terra no país, que se viram desimpedidos para invadir e depredar propriedades de brasileiros. Mas o clima de enfrentamento não trouxe nenhum avanço na redistribuição de terras, tarefa prejudicada também pela inépcia administrativa do Indert, o órgão público responsável pela reforma agrária. Por fim, os próprios carperos começaram a se irritar com Lugo. A disputa no campo acabou por derrubá-lo. Após um confronto entre polícia e sem-terra que deixou 17 mortos em junho passado, o Partido Colorado, que manteve a maioria no Congresso, articulou um pedido de impeachment por "mau desempenho" do presidente. Dias depois, Lugo seria deposto e entraria em seu lugar o vice, Federico Franco, do Partido Liberal. De aliados por quatro anos, os liberais rapidamente abandonaram a Frente Guasú e apoiaram a destituição – Efraín Alegre inclusive. O clássico arranjo de poder do Paraguai estava reconstruído. Agora, o candidato da Frente Guasú, Aníbal Carrillo, não passa de 2% das preferências. Lugo tentará a ressurreição política com a candidatura a senador. Ele tem chances de se eleger, mas tornou-se uma figura tão fragilizada que dificilmente conseguirá incomodar a bipolarização colorados-liberais.
A posse de um presidente de pouca afinidade ideológica com os dois grandes vizinhos (Brasil e Argentina) tende a trazer novos desafios para o Paraguai. A destituição de Lugo causou uma grave crise diplomática e a suspensão do Mercosul, somadas à inclusão da Venezuela deHugo Chávez, que era um desafeto para os políticos tradicionais paraguaios. Os membros do bloco garantiram que o Paraguai retornaria a seu status normal assim que fossem realizadas as eleições presidenciais. Tanto Horacio Cartes quanto Efraín Alegre não querem mais atrito com o Brasil. Cartes é quase adorado pelos brasiguaios e provavelmente não moverá uma pá para dar terras aos camponeses. Os interesses dos grandes agricultores serão atendidos. O cenário não deve ser muito diferente com Alegre, pois o atual presidente, que é do seu partido, prometeu sempre dar atenção aos brasiguaios. Diz Alegre sobre como quer se relacionar com o Brasil: "O que nos une no presente e as coincidências acerca do futuro são muito mais importantes do que aquilo que nos separa. Somos aliados estratégicos".
Mesmo assim, o governo brasileiro sabe que terá de lidar com questões delicadas, seja qual for o vencedor. Cartes tem contra si várias acusações de envolvimento com o contrabando e tráfico de drogas. Dono de 27 empresas, ele começou como um pequeno distribuidor de cigarros na região de Ciudad del Este. Hoje, possui a maior "tabacalera" do país, a Tabesa, com sede em Hernandarias, ao lado de Ciudad del Este. Maços de cigarros da Tabesa, como o Eight, podem ser comprados facilmente em centros de comércio popular de São Paulo, como a Rua 25 de Março. O argumento da Tabesa é que a empresa vende para atacadistas no Paraguai e não tem como fiscalizar o envio ilegal das mercadorias ao Brasil. Na provável condição de presidente da República, Cartes não poderá mais se valer apenas desse discurso, pois a responsabilidade de impedir o contrabando de seus próprios cigarros recairá sobre ele. Ele também sempre teve de se defender de uma suposta associação com o tráfico, motivada principalmente por ter comprado terras de Fahd Jamil, um empresário brasileiro de origem libanesa apontado frequentemente como o chefão da droga na fronteira entre Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero, do lado paraguaio. Os processos contra Jamil por lavagem de dinheiro e tráfico prescreveram e hoje ele não responde por nenhum crime, mas a fama de capo continua. O Brasil compartilha 1360 quilômetros de fronteira com o Paraguai, e por ela passa boa parte da droga que abastece os grandes centros, como Rio e São Paulo.
O uso da energia da hidrelétrica binacional de Itaipu será outro tema espinhoso. Cada país tem direito a 50% da produção da usina. O Paraguai pretende elevar seu percentual efetivamente consumido, atualmente em 15%, o que significa diminuir o excedente vendido para o Brasil. Cartes não tem tocado muito nessa questão, mas Alegre trata essa questão como uma de suas prioridades. "Nossa posição é clara: o Paraguai quer sua energia para gerar emprego, desenvolvimento e crescimento local. Queremos usar a energia para dar oportunidades a empresas paraguaias, brasileiras, argentinas e de outros países que apostem no nosso país", afirmou Alegre a ÉPOCA, por escrito. Visto por muitos paraguaios como responsável por influir negativamente nos rumos do país, o Brasil será encarado pelo próximo presidente como um aliado indispensável – desde que aceite negociar.
Revista Época
Nenhum comentário :
Postar um comentário