Denis Pelletier é o diretor da escola de estudo superior (EPHE) e especialista em história do cristianismo contemporâneo. Ele fez uma análise sobre o modo como a Igreja aos poucos volta ao mundo da política, especialmente nas questões que se referem ao casamento de homossexuais.
A Igreja Católica na França está se politizando pelo seu envolvimento na luta contra o casamento de homossexuais?
É verdade. Depois de alguns anos, assistimos a uma nova fase na qual a Igreja se manifesta como uma entidade preocupada com a esfera política. Depois de um período de 50 anos, ela retoma as atitudes de engajamento político. Viveu uma fase de forte incidência política no período de 68, quando havia um grupo de minoria católica fortemente atuante na política.
No fim da década de 70 e, sobretudo a partir de 1985, o catolicismo francês deu uma volta e se distanciou das questões políticas, mais preocupado com a dimensão espiritual que foi abraçada sobretudo pelos novos movimentos carismáticos e, sob o pontificado de João Paulo II, foi introduzido um novo modelo romano de vida da Igreja marcado pela chave de "uma nova evangelização".
O regresso à esfera política é marcado pelas questões relacionadas com a esfera da bioética ou "biopolítica", aquelas questões que antigamente eram consideradas da esfera particular, agora se tornaram questões sociais. São as questões ligadas ao matrimônio, à adoção, à geração artificial, às células tronco e à biodiversidade.
Qual é a forma de presença da igreja na vida política?
A mobilização assumiu uma nova dimensão na ação de combate contra a forma de "matrimônio para todos". São três as formas adotadas pela Igreja: em primeiro lugar uma forma de engajamento muito forte por parte dos bispos, que não emergia desde a década de 60, quando a interferência deles na política começou a ser discreta. Agora surge o envolvimento de grupos de fiéis e de paróquias. Percebemos que até o clero começa a falar de política em suas homilias, o que não era costume. Enfim, vimos crescer as manifestações públicas e via internet, manifestações de rua, organizadas por grupos menores mas com uma incidência muito forte.
A mobilização assumiu uma nova dimensão na ação de combate contra a forma de "matrimônio para todos". São três as formas adotadas pela Igreja: em primeiro lugar uma forma de engajamento muito forte por parte dos bispos, que não emergia desde a década de 60, quando a interferência deles na política começou a ser discreta. Agora surge o envolvimento de grupos de fiéis e de paróquias. Percebemos que até o clero começa a falar de política em suas homilias, o que não era costume. Enfim, vimos crescer as manifestações públicas e via internet, manifestações de rua, organizadas por grupos menores mas com uma incidência muito forte.
O instrumento dos meios de comunicação de massa é uma novidade para a Igreja?
A questão da importância dos meios de comunicação sempre foi considerada essencial pela Igreja porque sua pregação tem rosto missionário. Os militantes contra o matrimônio homossexual se colocam nesta linha da comunicação e percebemos que têm um peso grande. As organizações católicas investiram rapidamente nos meios de internet. Os militantes mais conservadores e que assumem posições mais radicais contra os fundamentos filosóficos da modernidade são paradoxalmente os mais eficazes no uso das técnicas modernas da comunicação.
A questão da importância dos meios de comunicação sempre foi considerada essencial pela Igreja porque sua pregação tem rosto missionário. Os militantes contra o matrimônio homossexual se colocam nesta linha da comunicação e percebemos que têm um peso grande. As organizações católicas investiram rapidamente nos meios de internet. Os militantes mais conservadores e que assumem posições mais radicais contra os fundamentos filosóficos da modernidade são paradoxalmente os mais eficazes no uso das técnicas modernas da comunicação.
Quais são os fundamentos ideológicos deste engajamento político?
Para o episcopado francês, aumentou na sociedade uma tendência de ruptura, depois de 1968, entre os fundamentos jurídicos da sociedade e aquilo que os bispos chamam de " direito natural". A Igreja sente-se segura ao condenar esse movimento que altera as bases jurídicas da organização social que amadureceu ao longo de muitos anos.
Para o episcopado francês, aumentou na sociedade uma tendência de ruptura, depois de 1968, entre os fundamentos jurídicos da sociedade e aquilo que os bispos chamam de " direito natural". A Igreja sente-se segura ao condenar esse movimento que altera as bases jurídicas da organização social que amadureceu ao longo de muitos anos.
A mesma lógica é aplicada no combate contra a contracepção, com base na encíclica da Humanae Vitae de 1968, contra o aborto, uma lei aprovada em 1975, contra a atribuição de direitos de união informal e finalmente contra a adoção por homossexuais. Enfim a Igreja quer defender o modelo de família.
Segundo esses movimentos católicos, a sociedade está rompendo com os fundamentos da própria natureza humana. Portanto os argumentos que são apresentados não são mais de ordem teológica. São valores de ordem psicológica, psicanalítica, que se apóiam sobre as ciências da vida, um discurso que não é exclusivamente dos católicos.
Creio que esse doutrina da Igreja contra o "matrimônio-para-todos", brota de uma cultura marcada pela homofobia herdada do passado. Trata-se de uma concepção do matrimônio centrada nas relações sexuais em vista da procriação. Portanto a homossexualidade iria contra o direito natural. Contudo há também católicos na Igreja que não são totalmente contra essas coisas novas.
A Igreja então está dividida ao enfrentar politicamente esta questão do matrimônio
É necessário distinguir sempre o que é tarefa do magistério da Igreja - sobretudo dos bispos - e a comunidade dos fiéis católicos na qual há pessoas que não aderem a todo os ensinamentos do magistério. Na França, o catolicismo hoje já é um pouco pluralista.
É necessário distinguir sempre o que é tarefa do magistério da Igreja - sobretudo dos bispos - e a comunidade dos fiéis católicos na qual há pessoas que não aderem a todo os ensinamentos do magistério. Na França, o catolicismo hoje já é um pouco pluralista.
Os sociólogos afirmam que, depois de bastante tempo, as convicções da maioria dos católicos são conservadoras. O conservadorismo pouco depois da segunda Guerra Mundial começou a ganhar consistência. Houve uma modernização entre 58 e 84, mas agora a onda conservadora está se mobilizando centrada sobre a questão do modelo familiar e da defesa da intimidade pessoal. A esfera íntima é aquela que a Igreja defendeu com muita energia durante muito tempo. Os católicos percebem que estão perdendo esse valor. É por isso que estão ocupando o terreno da política com manifestações muito incisivas.
Mas nem todos os católicos participam desse movimento. Há um certo número de católicos que não se identifica com esse tipo de manifestação. Também o clero está dividido nessa questão.
Ao contrário, há pessoas não católicas que se integram com muita paixão nesse movimento. Isso permite à Igreja de criar novas relações com a sociedade laica.
Também com partidos políticos?
Também. Há outros grupos não católicos que se alinham bem com essa resistência.
Também. Há outros grupos não católicos que se alinham bem com essa resistência.
Esse confronto veio para durar muito tempo?
Esse movimento atual tem condições de reestruturar a relação entre religião e política em França, até porque a Igreja não tem mais condições de impor suas convicções à sociedade. Sob esse ponto de vista, a Igreja sabe bem que perdeu poder, mas tem força.
Esse movimento atual tem condições de reestruturar a relação entre religião e política em França, até porque a Igreja não tem mais condições de impor suas convicções à sociedade. Sob esse ponto de vista, a Igreja sabe bem que perdeu poder, mas tem força.
Sabemos que dentro do catolicismo está acontecendo uma recarga militante muito aberta e disposta a entrar em combate em outras dimensões da vida humana. A Igreja não tem o mesmo peso social que tinha décadas atrás. Seu combate é liderado por uma minoria, mas bem decidida.
Esses grupos católicos souberam se armar com o espírito militante de minorias para se fazer respeitar, através de ações espetaculares e com discursos sobre o direito a ser diferente e o direito de ser católico e professar a fé e se manifestar publicamente.
Fonte: Le Monde
Nenhum comentário :
Postar um comentário