quinta-feira, 23 de maio de 2013

"O corporativismo está travando a democracia"

O financista Nicolas Berggruen fez fortuna em Wall Street. Hoje dedica parte de seu tempo ao ativismo político. Dono de um patrimônio de US$ 2 bilhões, Berggruen, de 51 anos, fundou, em 2010, um centro de pesquisas que leva seu nome, na Califórnia, Estados Unidos, para promover o estudo de novos sistemas de governança. Aproximou-se da nata da social-democracia mundial. Fazem parte da lista de conselheiros de sua entidade os ex-primeiros-ministros Tony Blair, do Reino Unido, e Felipe González, da Espanha, o francês Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Europeia, e o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso. Segundo Berggruen, a governança – um termo do sociologuês que designa a maneira como o poder administra os recursos sociais e econômicos de um país – é o fator determinante, com a cultura, para o bem-estar da sociedade. “A governança faz a diferença”, afirma Berggruen, coautor de um livro sobre o tema – Governança inteligente para o século XXI –, recém-lançado no Brasil pela editora Objetiva, da qual ele detém o controle.

Filho de um rico marchand, cuja coleção incluía obras de Matisse e Picasso, de quem seu pai era amigo, Berggruen nasceu em Paris e tem dupla nacionalidade, alemã e americana. Solteirão, viaja pelo mundo em seu jatinho, um Gulfstream IV, e vive em hotéis cinco estrelas. Famoso pelas festas que promove no Hotel Marmont, em Los Angeles, na véspera da entrega do Oscar, frequentemente é flagrado com modelos e atrizes, como a alemã Claudia Schiffer ou a britânica Gabriella Wright. Nesta entrevista a ÉPOCA, concedida durante uma viagem recente ao Brasil, Berggruen fala sobre o futuro da mídia na era digital, o potencial do mercado de livros no país – ele investe nas duas áreas – e governança global.

EUA E CHINA O financista e investidor Nicolas Berggruen.  Ele propõe um intercâmbio entre Oriente e Ocidente (Foto: JB Reed/Bloomberg/Getty Images)
ÉPOCA – Em seu livro, o senhor diz que o mundo vive hoje uma crise de governança política. Que crise é essa?
Nicolas Berggruen – A democracia liberal é um sistema que abre espaço para muitas vozes. Isso é muito bom, mas, hoje, no Ocidente, nas democracias mais avançadas, o sistema não funciona como deveria. Nos EUA, os lobbies e o corporativismo predominam: associações patronais, sindicatos, todo tipo de grupos de interesse, de ambientalistas a associações de advogados. Isso é normal na democracia, mas, muitas vezes, acaba impedindo o governo de tomar decisões duras, que não são populares, porém são as mais indicadas naquele momento. Os dois grandes partidos americanos, o Democrata e o Republicano, não estão comprometidos com o futuro do país, mas em defender a si mesmos e em matar um ao outro.

ÉPOCA – De que forma essa crise se manifesta em outras regiões do mundo?
Berggruen – Na Europa – com os EUA, o exemplo mais bem-sucedido de democracia liberal dos últimos 200 anos –, o sistema em que tudo deve ser decidido em Bruxelas também não funciona. Eles criaram a moeda comum, mas precisariam dar mais força ao poder central para o sistema funcionar. Só que seria necessário abrir mão de soberania. Não dá para fazer isso sem legitimidade. No Oriente, a China vive, a seu modo, uma crise de governança. Eles deram poder econômico aos cidadãos, mas não o poder político correspondente. Falta delegação de poder, transparência. Os indivíduos não têm direitos suficientes contra o Estado, contra o partido. O sistema chinês também pode se tornar muito corrupto.

ÉPOCA – Em sua visão, qual seria a melhor saída para essa crise de governança?
Berggruen – Num mundo multipolar, em que não há mais um país hegemônico, não se pode mais advogar a ideia de que um único sistema é bom para todos. Há diferentes sistemas, diferentes culturas, diferentes ideologias. Temos de aprender uns com os outros. Isso é o oposto de mudar de um sistema para outro ou de uma ideologia para outra. Tem de haver crenças, mas elas acabam terminando na ideologia. Num mundo muito mais complexo, pode não ser a resposta certa.

ÉPOCA – Na prática, como esse intercâmbio entre os dois sistemas funcionaria?
Berggruen – No Ocidente, a democracia dá poder aos indivíduos. Dá transparência, responsabilidade. O poder delegado é o poder eleito. O Executivo é equilibrado pelo Legislativo e pelo Judiciário, algumas vezes mais, outras menos. Mas somos muito orientados para o curto prazo. As eleições determinam a direção que tomamos. O governo, muitas vezes, não consegue realizar investimentos em infraestrutura e em educação, porque as pessoas adoram consumir e nem sempre gostam de investir a longo prazo. No Oriente, o modelo é bem diferente. Na China, os dirigentes não são eleitos, mas escolhidos por meio de um longo processo de competição dentro do partido, do sistema. De certa forma, o Partido Comunista é como uma grande empresa que atua na área de serviços. Há uma ênfase na competência, na entrega de facilidades à população, na habilidade de tomar decisões e de conseguir implementá-las, na disposição de pensar e investir a longo prazo e na capacidade de formar consenso dentro do partido, dentro do poder. Por que não podemos aprender essa meritocracia com o Oriente, essa habilidade de tomar decisões e de ter pessoas mais capazes e experientes no poder, em vez de só ter pessoas populares? E por que eles não podem aprender algumas de nossas boas práticas que dão direitos e respeito à sociedade?

ÉPOCA – Não é meio ingênuo imaginar que esse intercâmbio entre os dois sistemas possa realmente acontecer?
Berggruen – Às vezes, as ideias ingênuas são importantes para estimular o debate. Isso não significa que você conseguirá alcançar bons resultados, mas ao menos põe as ideias na mesa. Os americanos nunca verão a China como modelo. Se os EUA fizerem algumas mudanças, eles nunca dirão: “Copiamos isso da China”. E vice-versa. Ainda assim, os americanos têm reconhecido mais e mais que estão numa encruzilhada e que será difícil para eles seguir em frente e ter um sistema que funcione num mundo altamente competitivo, se não promoverem mudanças. Eles estão bem conscientes disso.

ÉPOCA – Esses conflitos entre os poderes e grupos de interesse no Ocidente não fazem parte da democracia?
Berggruen – Fazem, sim, desde que sejam resolvidos depois de algum tempo. Nos EUA, desde 2008, há quase cinco anos, o problema está sem solução. É muito tempo num mundo que muda de forma muito dinâmica. A Europa tem passado por uma séria crise há três anos e não consegue resolver a questão da governança. Será que chegaremos lá? É provável que sim, porque a crise força as coisas a acontecer, e isso é a essência da democracia. Hoje, porém, é muito mais difícil promover as mudanças e tomar decisões que 20 anos atrás.

"Somos orientados para o curto prazo, as eleições determinam
as direções que tomamos"
ÉPOCA – O senhor acha realmente possível o regime autoritário chinês promover uma abertura política no país?
Berggruen – Na China, como você sabe, não há liberdade de imprensa, mas há muitas discussões no governo e na mídia, controlada pelo Estado, sobre a necessidade de realizar mudanças no país. Eles não sabem exatamente por onde ir, mas sabem que têm de mudar. A corrupção é um problema. Eles estão abertos para discutir a questão, assim como a possibilidade de dar mais direitos aos cidadãos. É improvável que queiram nos copiar nesse aspecto, realizar eleições, mas sabem que terão de se abrir. É preciso levar em conta que, em milhares de anos, os chineses nunca tiveram os direitos individuais que temos no Ocidente. Outros países na região, como Taiwan e Coreia do Sul, que também têm raízes no confucionismo, passaram da autocracia para um sistema mais aberto hoje. Isso não significa que a China fará o mesmo, mas há exemplos na região de países que fizeram mudanças. Se o regime chinês não mudar, dificilmente sobreviverá como sistema.

ÉPOCA – O senhor faz elogios à meritocracia na China. E quanto ao tráfico de influência, que permite a um dirigente chegar ao topo do Partido Comunista graças ao relacionamento com as autoridades? E os benefícios obtidos pelos netos dos velhos dirigentes comunistas graças apenas aos laços familiares?
Berggruen – Depois de 30 anos, o sistema chinês tornou-se corrupto. As pessoas passaram a depender de relacionamentos para conseguir as coisas. Mais uma vez, temos de lembrar que a cultura chinesa é diferente da ocidental. Em Confúcio, tudo depende de relacionamentos. Embora isso tenha levado à corrupção, é preciso reconhecer também que o sistema alçou indivíduos capazes aos maiores níveis de poder. Eles não chegaram lá só por relacionamento. Houve uma combinação de relacionamentos e resultados concretos, obtidos em posições anteriores no setor público. Na China, um braço do governo que também existe em outros países, como Taiwan e Coreia do Sul, avalia e dá nota a todas as autoridades e todos os funcionários do governo. É como um departamento de recursos humanos independente, que avalia todas as pessoas, recomenda para onde elas devem ir e ajuda o governo a escolher suas lideranças.

ÉPOCA – Nesse contexto, como fica o Brasil?
Berggruen – O Brasil fez um grande progresso nas últimas décadas e se tornou um país relevante no mundo. É preciso garantir que esse progresso continue. A competição global está crescendo. É importante estar comprometido com a realização de investimentos de longo prazo, como infraestrutura e educação. A educação deve ser o investimento número um de qualquer país, não apenas no Brasil. O mundo passou de uma sociedade industrial para uma sociedade de consumo. Agora, se move em direção a uma sociedade do conhecimento, que privilegiará quem tiver a melhor educação. Hoje, por meio da tecnologia, há possibilidade de dar educação a todos. É preciso ter a capacidade administrativa e política de fazer isso e de garantir que a sociedade distribua sua riqueza de forma razoavelmente justa – há várias formas de fazê-lo, inclusive por meio de impostos. É preciso ter um mercado razoavelmente livre para os negócios. O que ajudou o Brasil, além de uma visão mais profissional e mais pragmática das coisas, foi ter permitido que os negócios fora da esfera do governo florescessem. O segredo é encontrar o equilíbrio entre o Poder Executivo, as instituições políticas e a sociedade civil, que inclui a iniciativa privada. O Brasil fez isso há 20 anos, mas precisa garantir que não haja uma volta ao passado.

ÉPOCA – O senhor tem grandes investimentos em empresas de mídia tradicional, como jornais, revistas e televisão, e também em editoras de livros. Em sua visão, quais os principais desafios do setor hoje, com o crescimento da internet e das redes sociais?
Berggruen – A internet e a tecnologia são desafiadoras em quase qualquer negócio hoje, incluindo a mídia. No passado, havia poucos e grandes veículos de comunicação, poucos canais de TV, poucas revistas, poucos jornais. Hoje, o ambiente está bem mais fragmentado. É mais difícil para as vozes tradicionais manter a relevância. Isso é bom, por um lado, porque há mais diversidade e mais oportunidade para o público conhecer ideias diferentes. O ruim é que isso estimula a segmentação por tribos. Um grupo de amigos acaba absorvendo só informações que têm a ver com eles, em vez de olhar o mundo de forma mais aberta. As novas tecnologias promovem uma grande mudança na distribuição do conteúdo. As empresas de mídia deverão se tornar cada vez mais editoras que produtoras de conteúdo. Ainda haverá espaço para alguns poucos veículos nacionais e para veículos locais e superespecializados. Mas, no final do processo, a mídia tradicional deverá ficar com um pedaço menor do bolo. Terá de sobreviver com menos dinheiro e com custos menores. Como abaixar os custos? Infelizmente, tem de cortar pessoas, incluindo provedores de conteúdo. Precisa também fazer alianças para obter conteúdo de terceiros e conteúdo gratuito, que pode ser obtido hoje com boa qualidade.

Revista Época

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