Um oásis de riqueza e tradições culturais com invejável qualidade de vida
Hong Kong, uma tradução da “aldeia global” de Marshall Mcluhan. (Divulgação)
Hong Kong, uma tradução da “aldeia global” de Marshall Mcluhan. (Divulgação)
Hong Kong, uma tradução da “aldeia global” de Marshall Mcluhan. (Divulgação)
Hong Kong, uma tradução da “aldeia global” de Marshall Mcluhan. (Divulgação)
Hong Kong, uma tradução da “aldeia global” de Marshall Mcluhan. (Divulgação)
Por Marco Lacerda*
Com a morte de Mao Tsé Tung, em 1976, ascende ao poder Deng Xiaoping, um comunista de centro favorável à liberalização progressiva do regime chinês. Esse processo acabou por afastar do comando do partido comunista chinês os representantes considerados “maoístas”, ou seja, os defensores das políticas aplicadas por Mao.
A partir da chegada de Deng Xiaoping, a China passou a ser levada lentamente a um regime misto, que procurava liberar economicamente o país, mas, por outro lado, mantinha a estrutura de partido político único, ou seja, com restrições à participação democrática. Ao longo dos anos 80 e 90 do século XX, foram tomadas algumas medidas, como a descoletivização das terras, o encerramento das comunas populares, o incentivo à autonomia das províncias e também a valorização de associação entre empresas chinesas e estrangeiras. Essas medidas acabaram por reaquecer a economia chinesa.
Ao abrir suas portas à economia capitalista, a China passou a realizar atividades que visavam integrá-la a toda a rede de comércio mundial. Em 1990, foram criadas as ZEEs — Zonas Econômicas Especiais —, nas quais empresas multinacionais podiam instalar seus parques industriais. Em 1997, a região de Hong Kong, que estava sob posse britânica, voltou para os chineses, estimulou ainda mais o capitalismo chinês e transformou-se numa das melhores traduções da “aldeia global” profetizada por Marshall Mcluhan.
Em 2001, a China foi aceita na Organização Mundial do Comércio (OMC), a instituição que regula as atividades comerciais no mundo. Esse conjunto de medidas fez com que o PIB — Produto Interno Bruto — chinês, por vários anos seguidos, apresentasse números que podem ser considerados fantásticos em comparação com os de outros países em desenvolvimento, como o Brasil.
Onde o Oriente encontra o Ocidente
Conhecida pelos seus aranha-céus e por seu imenso porto natural, a identidade de Hong Kong como um centro cosmopolita onde o Oriente encontra o Ocidente se reflete na gastronomia, em sua música, nas tradições culturais e particularmente no cinema. O país ganhou fama internacional depois que serviu de locação para as filmagens de “Suplício de uma saudade”.
Ambientado durante a Guerra da Coréia, o filme narra a história de um correspondente de guerra americano (William Holden) e seu amor por uma médica eurasiana (Jennifer Jones). Todo o exótico esplendor de Hong Kong foi capturado pela magnífica fotografia de Leon Shamroy e a trilha sonora vencedora do Oscar em 1955. “Suplício de uma Saudade” é uma referência no gênero dos filmes românticos de Hollywood.
A população de Hong Kong é de 95% de chineses e 5% de outros grupos étnicos. Com uma população de 7 milhões de habitantes e uma extensão de 1.054 km², Hong Kong é uma das áreas mais povoadas do mundo.
O país possui seu próprio sistema legal, moeda, alfândega, direitos de negociação de tratados (como tráfego aéreo e permissão de aterrisagem de aviões) e leis de imigração próprias. Hong Kong mantém até suas próprias regras de trânsito, com toda a frota de automóveis dirigindo no lado esquerdo.
O principal idioma falado no país é o Mandarim também adotado em vários outros países da região, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é de 0,937 que considerado bastante alto. O país não tem capital.
Tradição culinária
Nos Novos Territórios de Hong Kong, principalmente nos rurais, há grupos que comem da mesma comida, uma tradição própria de que se orgulham. Uma delas é servir o poonchoi para celebrar casamentos, nascimentos, festas religiosas.
O poonchoi é uma refeição em que não há necessidade de mesa, nem de cadeiras, nem de pratos. As pessoas ficam de cócoras à volta de uma bacia de comida posta no chão e comem ali mesmo com seus hashis.
O ritual é assim. Uma pessoa nomeada faz as compras, contrata ajudantes e cozinha. Compra barriga de porco, feijão, lulas e enguias secas. Comida de todo dia, fácil de achar e barata. Tempera bem e depois de cozinhar cada ingrediente coloca em recipientes diferentes.
Só na hora de comer a comida é posta em camadas nas bacias. As mais baratas no fundo e as mais caras por cima. Imediatamente são mandadas para os grupos de oito a dez pessoas acompanhadas por arroz cozido no vapor. Os convivas começam a comer procurando as coisas de que mais gostam. Os convidados, tradicionalmente, eram homens com mais de 60 anos, para reforçar a ideia da maior importância masculina e da marginalidade das mulheres.
Depois de 1980, deu-se permissão a quem quisesse se reunir em torno da bacia - a reinvenção da tradição numa sociedade em mudança. O poonchoi foi mudando de cara. Leva abalone seco, cogumelos secos, barbatanas de tubarão importados da Austrália, Vietnã, Coréia, México, Chile. Os ingredientes não são mais locais ou baratos.
Tornou-se uma receita global, com ingredientes exóticos, no melhor estilo fusion, satisfazendo os desejos do cliente e representando mudança, adaptação e inclusão. É a metrópole civilizada, a representação de uma sociedade evoluída. Comercializou-se, perdeu o caráter étnico como acontece em praticamente todo o planeta.
“Suplício de uma saudade”, filme ambientado em Hong Kong. Veja:
*Marco Lacerda é jornalista, escritor e editor especial do DomTotal
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