Inspirada em El Greco, exposição abre hoje na Quadrum Galeria de Arte.
![]() "Em El Greco eu me vi": Gil Vicente, 2013. (Foto: Divulgação) |
Por Inês Grosso
Data de 1934 o ensaio do historiador de arte francês Henri Focillon (1881 – 1943) o Elogio da mão, posteriormente incluído como posfácio de Vida das Formas. O texto levanta a discussão da importância da mão como órgão privilegiado da experiência do mundo e da prática das artes: a mão é ação, na medida em que ela toma, cria, e, segundo defendeu, ocasionalmente, pensa.
Parábola ao que resta da prática da pintura na arte contemporânea, a introdução deste elemento pictórico mostra que a mensagem do artista continua a ser eficaz - a militância de uma ancestralidade que sobrevive na ação manual. Desta forma, as mãos aqui representadas são as do conhecimento adquirido no exercício do ofício, mas também elementos visuais que prestam homenagem a um legado.
O que nos é dado a ver pela mão do artista é um conjunto de desenhos de médio e pequeno formato a nanquim sobre papel, que reafirmam a importância do retrato no corpo central de seu trabalho. Iniciados com a série Sessenta Cabeças, que integrou a exposição individual que realizou no MAM do Rio de Janeiro no final da década de 90, seus retratos, enquadramentos fechados de semblantes enigmáticos que sobressaem num imenso mar negro, introduzem um singular universo artístico e novas explorações relacionadas com uma forma cada vez mais parcimoniosa e sintética de pintar.
Jogando com uma enorme economia de meios, Gil Vicente encontrou no nanquim, mas também no carvão, uma possibilidade contemporânea do retrato, potenciando a relação entre gráfico e pictórico que identificamos como eixo de sua atividade criativa desde os primeiros anos. Se, por um lado, o virtuosismo ligado ao domínio técnico se tornou o valor inequívoco de um trabalho plural e persistente, por outro, cria uma espécie de aura sombria para o rosto que surge velado por uma tinta translúcida numa poética que exalta a dimensão interior do ser humano.
É afinal o que se esconde atrás do rosto, o que pertence ao domínio dos sentidos e ao subconsciente que interessa a Gil Vicente. O artista vive do visível e pinta o invisível e daqui parte para uma realidade comum da existência humana e profundamente atual: o isolamento do homem moderno, a angústia, as atrocidades e hipocrisias de sua condição.
Por último, vale observar a intencional abstração do sujeito em seus retratos, podendo o rosto representado ser o nosso, ou mesmo o do artista que, lembremos, diz ser diante da presença do outro que se descobre e se encontra. É neste sentido que a obra de Gil Vicente alcança uma inquestionável dimensão autobiográfica que convive, paradoxalmente, com o caráter universal instituído pelas questões da esfera pessoal e interior que dominam o seu discurso.
Como outrora se disse, “depois do rosto, as mãos são a parte do corpo humano que mais obviamente expressa a emoção.
Trajetória
Gil Vicente é um dos mais relevantes artistas da sua geração. As obras em exposição, sua primeira individual em Minas Gerais, mostram o momento atual de sua produção, que conta com mais de quatro décadas de prática contínua no limiar da fronteira entre o desenho e a pintura. Segunda Parábola possibilita um reencontro, sempre renovado, com algumas das questões que marcam sua obra e, aliás, a vida da pintura contemporânea.
Nasceu em 1958 no Recife, onde mora e trabalha. Entre 1972 e 1981 estudou na Escolinha de Arte do Recife e nos cursos livres da UFPE e da Escola de Belas-Artes de Paris.
Em 1975 recebeu o 1º Prêmio do Salão dos Novos, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, e em 1981 o Prêmio MEC/FUNARTE do Salão de Arte de Pernambuco.
Realizou mostras individuais no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no MAM da Bahia, no MAC de Porto Alegre e no MAMAM do Recife (1998-00). A partir de 2005 expõe a série Inimigos em Recife, Natal, Porto Alegre e São Paulo.
Participou da III Bienal do Mercosul, em 2001 e da 25ª Bienal de São Paulo, em 2002. Integrou o Panorama da Arte Brasileira (em São Paulo e Madri) e participou da 29ª Bienal de São Paulo, em 2010. Fez parte das exposições Blue Connection e Fragile Helden, em Frankfurt, em 2011.
SERVIÇO
Exposição do artista Gil Vicente
Título: “A segunda parábola”
Abertura: 17 de outubro, de 19h às 22h
Visitação: 18 de outubro a 9 de novembro de 2013
Horário: Segunda a sexta, das 12h às 19 h – sábados de 10h às 14 h
Local: Quadrum Galeria de Arte
Endereço: Avenida Prudente de Morais, 78, Belo Horizonte
Informações: (31) 3296-4866

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