05/01/2013

Clarice Lispector: o amor e suas faces

Nas selvas africanas, o leitor acompanha a expedição do explorador Marcel Pretre; este descobre uma tribo menor que os pigmeus, deparando a menor mulher do mundo, intrigando os que dela têm notícia
Neste conto, "A menor mulher do mundo", Clarice Lispector utiliza uma mistura sutil de realidade e ficção, ao embasar todos os acontecimentos plausíveis até chegar ao fantástico evento que é o tamanho da personagem Pequena Flor. A temática desse conto gira em torno do Amor e das relações entre Natureza e Civilização. A Civilização superficial sobre a Natureza profunda, demonstrando o contraste entre o comportamento em sociedade com o comportamento natural, sem preocupação com julgamentos, nos quais o Amor demonstra suas diferentes tonalidades.

As faces do Amor

Neste conto, Clarice Lispector gira a sua história na repercussão da notícia da menor mulher do mundo em cada família tendo efeitos diferentes em um mesmo sentimento. Análise será de forma linear ao conto abordando as cenas principais. Há um contraste entre Marcel Pretre com a menor mulher que ele batiza como a Pequena Flor, mas o francês fica tão surpreendido pelo tamanho dessa pequena mulher neste trecho: (Texto I)

Tenta logo classificá-la como algo reconhecível para a realidade, a estranheza é tamanha que se ele fosse um homem comum teria sido levado para alucinação, porém tenta dominar esse sentimento dando uma classificação a esse fenômeno. Contextualiza a situação daquela tribo que é perseguida e devorada pelos bantos, sendo forçados a viver em árvores e fugir cada vez mais para o interior da floresta, tendo como base de vida sempre sobreviver a cada dia. Diante de coisa tão rara que a menor mulher daquela tribo, Marcel a compara a mais valiosa que qualquer riqueza pelo seu tamanho tão diminuto, dando um nome de maneira tão afetiva que nem a esposa do explorador julgaria ele ser capaz. Nesta parte fica bem realçado que a estranheza perante algo tão novo que parece desperta sentimentos antes desconhecidos para Marcel Pretre, voltemos a nossa visão para as famílias que recebem a notícia da existência de Pequena Flor.

A notícia

No dia de domingo, dia que se juntam as famílias, a notícia chega a todos. No primeiro lar, a imagem de Pequena Flor causa desconforto e mal-estar por ser algo tão estranho e fora da realidade para uma mulher tão arraigadamente presa ao cotidiano que evita olhar para imagem por causa-lhe aflição. No segundo apartamento, uma senhora tinha um perverso sentimento de ternura, a escritora mostra que a Pequena não deve ser deixada sozinha com essa mulher, um aspecto do Amor que se torna perigoso, pois só era apaixonado pela imagem, não havia interesse nenhum em conhecer os sentimentos de Pequena Flor, mas sim de tê-la como posse. Observe como ela demonstra nesta frase, "Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho.", ou nesta frase: "uma bondade perigosa estava no ar". Realçando bem que nas boas intenções vazias para apenas uma imagem podem trazer desgraça para o objeto amado.

Clarice Lispector integra a fase modernista marcada pela prosa introspectiva, que mergulha no universo pastoso da subjetividade humana


Na terceira família o enfoque fica na menina de cinco anos, que faz a descoberta de que havia alguém menor que ela. Diante dessa descoberta de que o seu mundo não tinha estabilidade nenhuma, pois mesmo sendo o seu tamanho, que trazia as melhores carícias, a criança percebe que trazia também o primeiro amor tirano, no qual ela toma consciência e tem medo desse tipo de sentimento O medo de ser só vista como apenas um objeto bonitinho, de um amor tirano e dominador que lhe toma a própria vida em completo controle, sem deixá-la ser livre. Fica-se a sabedoria de que "a desgraça não tem limites.", representando, desse modo, essa instabilidade.

Em outro lar, tendo um grande foco na mãe da família, inicia-se com a piedade da filha noiva em relação ao tamanho de Pequena Flor. A mãe procura dissociar a imagem dessa pigmeia a imagem humana, ao longo dessa cena percebe-se que os sentimentos em relação à Pequena Flor são equivalentes aos sentimentos de um animal de estimação, isso fica mais claro quando o filho fala da intenção de colocar essa africana para assustar o irmãozinho.

Uma revelação

A mãe tem uma epifania com a imagem de Pequena Flor: recorda alguns fatos de sua vida, como a lembrança de que as órfãs usaram uma colega morta como boneca, escondendo o fato dos adultos, isso denotava a necessidade humana de amar, mesmo que essa relação não seja correspondida, pensava em tal fato enquanto arruma os cabelos. Leva-a associar ao crescimento do filho que tomava as energias da vida em pleno vapor, natural e selvagem, sem camadas, o que a incomoda, resolvendo comprimir e sufocar essa vitalidade. Isso fica mais ciente neste trecho que demonstra a distância que ela quer interpor com a primitiva, apesar da inveja de sua naturalidade: (Texto II)

No último lar, fica essa visão de querer algo apenas pela sua raridade. Todos os familiares medem com uma fita métrica o tamanho da pequena primitiva para tentar imaginar o seu tamanho real, o que era, praticamente, inacreditável, despertando maior cobiça. O pai dessa família já vê que isso iria criar desavença, mas todos o chamam de insensível, para a cena seguinte que demonstra insensibilidade aos sentimentos alheios em toda a família, menos no pai, de querer possuir a Pequena Flor como uma empregada grávida de um filhotinho.

FIQUE POR DENTRO

Os jogos simbólicos

Há uma constante oposição entre símbolos no conto. O choque entre o explorador e explorado, cidade e selva, vida e morte, amor objeto e amor passional e grande e pequena. Ao longo do texto, tem-se a constante referência metafórica a boneca russa, na qual se guarda dentro bonecas menores, diminuindo o tamanho a cada uma delas que é aberta, deixando por último a menor de todas. Abstraindo dessa comparação sobre a essencialidade do Amor, simples, pequeno e denso. Araripe Júnior, crítico literário do século XIX, faz uma avaliação pertinente sobre a produção cultural e sua independência de modelos, já que cada região do mundo é independente culturalmente, como dito na frase: "O tropical não pode ser correto. A correção é o fruto da paciência e dos países frios; nos países quentes, a atenção é intermitente." Saindo da concepção eurocêntrica de cultura correta, o que vai ficar perceptível no conto de Lispector essa relação da natureza com a cultura, pois em cada ponto da história há uma troca entre contrastes, realçando a beleza do afeto em níveis diferentes.

TRECHOS

TEXTO I

Na certa, apenas por não ser louco, é que sua alma não desvairou nem perdeu os limites. Sentindo necessidade imediata de ordem, e dar nome ao que existe, apelidou-a de Pequena Flor. E, para conseguir classificá-la entre as realidades reconhecíveis, logo passou a colher dados a seu respeito.

TEXTO II

Obstinadamente afastando-se, e afastando-o, de alguma coisa que devia ser "escura como um macaco". Então, olhando para o espelho do banheiro, a mãe sorriu intencionalmente fina e polida, colocando, entre aquele seu rosto de linhas abstratas e a cara crua de Pequena Flor, a distância insuperável de milênios. Mas, com anos de prática, sabia que este seria um domingo em que teria de disfarçar de si mesma a ansiedade, o sonho, e milênios perdidos.

ANTÔNIO LUCIANO BONFIM NETOCOLABORADOR*
*Ensaísta

Diário do Nordeste

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